Por que um baú?

Bem, quem acompanha minha tentativa de escrever algo que seja bom ao leitor,vai poder voltar aqui, abrir o baú e ler, pensare espero eu que comente nos textos afinal, esse baú é para guardar pensamentos.
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terça-feira, 9 de março de 2010

Clarice Lispector

Poucas vezes eu peguei um texto e me identifiquei, inda mais quando é de alguém famoso, alguém que as linhas, e entrelinha carregam tanto do autor como eu faço com os meus textos, não necessariamente fazendo de seus textos representações de seus dias, mas representações de seu eu.
Hoje vagando como de costume nos escritores e escritoras, eu me peguei lendo um texto que me fez pensar, que eu conhecia alguém assim, alguém como o que ela dizia na linhas... e no fim eu me reconheci... Talvez por que quem me conheça ao ler o texto vá reconhecer frases que digo, sobre mim mesmo e como meu me sinto as vezes, principalmente em se tratando do tema que ela usou...
Tenho também o texto do poeta Fernando Pessoa, Poema em linha Reta . que me descreve em meu lado arrogante e mesquinho mas esse, esse dessa poetisa me descreve como me vejo a tanto e como me vejo a frente...
Confesso que me olhei nu aos olhos dela. E me senti de certa forma feliz em ser como sou... ao menos não fui o único e nem serei o único a me sentir assim.
Algumas pessoas me questionam se eu escrevo sobre mim, e por que escrevo sobre mim. Se eu gosto de me expor, e por que faço isso, bem... segue no texto a explicação...

Rifa-se um coração 

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional 
que abre sorrisos tão largos que quase dá 
pra engolir as orelhas, mas que 
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, 
se recusa a envelhecer" 
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta

Um comentário:

Ana Carolina disse...

Adoro Clarice Lispector, justamente por me identificar com ela.
A maneira que escreve e expõe sentimentos.
Muitas pessoas dizem que não gostam, que seus romances são complicados. Mas é incrível como me identifico com cada um deles, mesmo eles sendo muito diferentes um do outro, afinal.. não somos completamente iguais o tempo todo, mesmo sendo uma só pessoa.

Já havia lido a tentativa de rifar o coração, gostaria muito de saber se com ela deu certo, afinal, também estou rifando o meu!



À você, Brubs, adoro seus textos, o modo como se descreve neles.
Infelizmente nem sempre posso passar por aqui, como deve ter percebido. Mas saiba, sinceramente, que sempre que possível dou uma passadinha mesmo que para não ler uma postagem inteira. Como essa, que comecei faz tempo, e apenas agora pude terminar.
Parabéns pelas belas palavras, sempre!