Por que um baú?

Bem, quem acompanha minha tentativa de escrever algo que seja bom ao leitor,vai poder voltar aqui, abrir o baú e ler, pensare espero eu que comente nos textos afinal, esse baú é para guardar pensamentos.
Deixe aqui o seu também.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Trilha sonora

Sentou-se ao lado do velho avô segurando-lhe a mão em que as veias e marcas de sua história eram vistas a olho nu, o pequeno garoto sentia o peso de ter que se transformar em homem de uma hora a outra.
O velho deitado no leito abriu os olhos lentamente e com o polegar apertou suavemente a jovem mão de seu neto.
- OI pequeno, estava sonhando aqui quando você segurou minha mão no sonho sua avó segurava ela. – Sorriu afastando dos olhos as lagrimas que pareciam querer surgir, e continuou – No sonho eu controlava a trilha sonora de minha vida, escolhendo as musicas que tocavam a cada momento... e você sabe que eu adoro musica.
- É vô? E como foi me conta? - Disse o jovem rapaz menino que não escondia os olhos vermelhos e o rosto inundado em dores.
- Ahhh foi perfeito, no sonho estava eu como criança, bem pequeno e a trilha sonora eram as canções de roda que minha avó cantava e das cantigas que as lavadeiras repetiam todos os dias a beira do rio, eram canções quentes, como o som que eu recebia no rosto quando corria ainda de calças curtas na fazenda de meu pai.
- Depois, meu sonho começou a mudar e na minha adolescência eu tinha como trilha sonora eram os chorinhos, as violas, e a voz de Dalva... como eu gostava de ouvir ela cantar... no sonho o tempo foi passando e eu ficando velho e quando estava já maduro e conheci sua avó ouvia tanta coisa, mas a musica foi apagada pelo som pesado da artilharia dos canhões... e acho que uma opera bem pesada podia ser formada com tantos estouros... (Nesse momento ele apertou a mão de seu neto e uma ou outra lagrima também fugiram de seus olhos).
-Mas e depois vô? Me fala mais? –Perguntou o neto querendo mais espantar as lagrimas de seu avô do que realmente saber do sonho.
- Ahhh depois vieram os anos dourados, 50, 60 o rock as danças mais animadas Beetles e a voz de Sinatra, meu neto... ele tem uma voz... mas passou rápido, e nessa época eu passei a misturar tudo, por que tinha seu pai ouvindo cirandas e eu rock, depois sua tia, depois ficou triste como uma sonata de Bethovem “sonata a luz da lua” a que mais tocou ao fundo quando punha sua avó no descanso dela. Mas depois animou novamente quando meu filho casou, e ai a bossa nova, os sambas de seu pai, e as suas musicas de criança... até a hora que sua avó segurou minha mão... nessa hora eu ouvia outras musicas.
Ele olho nos olhos de seu neto, e com a mão arrumou o cabelo que caia nos olhos dele, e pode ver que seu neto chorava forte e profundamente, ele também se entregou a um choro e por fim disse olhando nos olhos de seu neto.
- A musica sempre me acompanhou sempre, até mesmo nas horas escuras da guerra, mas eram tão escuras e pesadas, mas mesmo lá eu ainda sabia que tinha muitas musicas pra ouvir, mesmo nos acordes pesados em meus ouvidos eu sabia e torcia por sons mais leves.. mas na hora que sua avó segurou minha mão no sonho... não ouvia musica, era tudo silencio tudo quieto... mas quando acordei agora... posso ouvir... estou ouvindo e sei que logo, vai ficar tudo bem quietinho...
- O que você esta ouvindo Vô? Que musica?
- Um melodioso fado, que mesmo sendo lamento de meus e seus olhos pode animar e dar força, é mas mesmo assim é um fado... – Dito isso o velho tocou as mãos de seu neto e pediu para que ele ficasse bem, e que fosse buscar um copo com água para ele.
Mas enquanto ia o neto sabia que quando volta-se essa mesma água seria para ele molhar a garganta... pois quando entrou de novo na quarto seu avô tinha um sorriso de reencontro no rosto, mas a trilha sonora era um triste fado de saudade...

Nenhum comentário: