Por que um baú?

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Cinzeiro

O cinzeiro estourou na parede espalhando pedaços de vidro por todo os cantos, ele levantou a cabeça calmamente, com os olhos pesados, ele que costumava sorrir tanto agora seriamente mantinha os olhos frios nela que congelada ficava na postura de quem acaba de arremessar... lentamente como que deixando o calor voltar ao corpo ela aprumou-se e o fintou o mais forte que pode.
Ele levantou-se e caminhou, ela temeu que ele fosse agredir ou qualquer outra coisa mas ele apenas passou por ela foi a geladeira, pegou uma garrafa de agua, a sua mochila no sofá e saiu pela porta.
Ela atônita ajoelhou-se e começou a juntar os inúmeros cacos de vidro finamente decorado, começou a pensar nele, e em como ele era cuidadoso, e como as vezes os cuidados eram tão intensos que a sufocava, mas logo lembrou-se de como sentia-se bem entre seus braços e como era seguro estar ali... e em pouco tempo recolhia os cacos de um cinzeiro que pouco ou nunca tinha sido usado como tal, recolhia esses cacos regando-os com suas lagrimas hora felizes com o sorriso de seu rosto... outras frias e amargas como as lembranças ruins.
Ele apertou o botão, mas logo a escada o convenceu que seria mais rápido, a cada degrau a lembrança de tudo que fez, de todas as vezes que a protegeu e até abusou na tentativa, de todas as vezes que sentou-se a seu lado na cama apenas para ver ela dormindo, de todos os momentos de sorrisos ... mas não conseguia se lembrar do motivo desta briga, e nunca conseguiria... não existem explicações... a única coisa que ele não consegue esquecer são as palavras ditas enquanto um cinzeiro voava rente as usa cabeça e estourava-se na parede “Eu não quero nunca mais falar com você”
O porteiro abre o portão, o comprimento de sempre tem apenas a resposta silenciosa de um olhar atordoado e lacrimoso, a rua fria, mais fria ainda sem ela agarrada em seu braço, ou a mão dela apertando a sua.
Ela sentou-se no sofá e só então pode perceber o quão perto foi o cinzeiro, a marca na parede, e os minúsculos cacos de vidro no braço do sofá... ele poderia estar ferido agora... pensou até “seria bem feito” mas logo o arrependimento... um ato desmedido poderia ter piorado ainda mais tudo... só então ela buscou se lembrar do motivo da briga... e para sua surpresa... não se lembrou... nada que ela se lembra-se era motivo o suficiente para que um cinzeiro voasse por toda a sala.
Ela levantou-se e pegou o telefone, os dedos rapidamente discaram o numero e logo o triste som do telefone tocando no quarto a fez perceber que não tinha mais nada a fazer... ele tinha tomado a rua sem um meio de que ela pudesse dizer “desculpe”...
O vento frio tocava sua face e gelava as lagrimas, poucas que ainda corriam, em seu rosto ele sentou-se no velho banco da praça, abaixou a cabeça e no silencio que ali estava pode ouvir o som do cinzeiro se partindo... dos cacos estourando no chão, e da voz doce dizendo frases duras... e as pequenas gotas de chuva que começavam a cair não o fizeram se mover um único milímetro.
Ela abraça os joelhos, sentada no sofá enquanto as horas vão passando, e logo a noite chega e com ela o som costumeiro dele abrindo a porta... úmido por dentro.. e totalmente molhado por fora, ela corre, tenta o abraçar e tirar seu casaco molhado dizendo inúmeros, “me desculpa” e ao olhar nos olhos dele não vê tudo que via antes... um vazio, um frio... uma existência de não existência... os passos até o banheiro, os passos pesados até o banheiro, e a roupa no chão, ela o observa encostada na porta ao vê-lo despir-se e encher a banheira tentou puxar assunto, mas ele pouco... na verdade nada respondia.
Por fim com a banheira cheia, quente, e ele dentro dela, parecendo derreter ele finalmente disse.
- O cinzeiro era presente de sua mãe...
-...
- Eu gostava dele...
-...
- Eu não entendo por que jogou ele em mim.
- Nem eu... Me desculpa!?
-Você juntou os cacos!?
- Sim... joguei fora...
- Não tentou colar!?
- Não.. ele era cheio de detalhes.
-É... as coisas são assim, umas difíceis de serem restauradas, outras impossíveis, mas todas tem uma facilidade incrível para partir...
-...
-Não lembro o motivo da briga, mas lembro que não queria mais falar comigo, não lembro como, mas lembro do som do cinzeiro estourando na parede atrás de mim... não lembro de nada que possa ter causado isso...mas sei que por longas horas na chuva, eu tinha uma única certeza...
- Qual!?
- Você quebrou não apenas o cinzeiro...
-E tem como colar?
-... eu estou aqui não estou!?
- ...
-Pega o cinzeiro e um vidro de super bonder... vamos tentar colar juntos
Ela sorri e entende que ela já tinha sido perdoada, agora faltava ela se perdoar...

2 comentários:

Luana disse...

Ja passei por algo assim... sem quebrar nada de vidro, mas quebrando tantas outras coisas!

Luana disse...

Coisas da alma, quero dizer