Por que um baú?

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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Cattleya labiata

A comida sem gosto rolava em sua boca, a parede do hospital era tão tediosa como um programa de domingo, e as visitas que antes alegravam e davam força a ele agora estavam cada vez mais escassas, afinal a vida de todos continuava e só a dele deslumbrava um fim.
As mãos tremulas não conseguiam manter a gelatina na colher, e ele a muito já tinha desistido das sobremesas, eram tão sem gosto como a própria comida, a única coisa que o agradava e fazia seus dias passarem eram os longos momentos que se sentava na cama e com um bloco de papel e lápis desenhava e desenhava por horas e horas, As enfermeiras muitas vezes ficavam ali ao lado dele observando as únicas horas em que suas mãos rugosas de tempo mantinham-se firmes para traçar os contornos de uma arvore, ou uma flor. Mas um desenhos se repetia sempre, ao menos parecia ser o mesmo desenho.
Uma jovem sentada em uma pedra debaixo de da copa de uma arvore tendo em suas mãos uma orquídea, o vendo suave mexendo no cabelo dela, ela olhando com um sorriso suave e doce para um lado e o sol atrás se pondo e contra o sol um vulto indecifrável, não conseguia saber se ele estava indo ou vindo.
- O senhor desenha muito bem sabia? – disse uma jovem enfermeira bem ao lado dele.
- Poxa obrigado, é o tempo sabe? Muito tempo fazendo algo te faz fazer isso bem, seja o que for.
- Verdade... experiência é algo muito importante, mas o senhor tem um DOM, isso é um fato.
- HAAA nem tenho, dom é algo que independe de prática, de trabalho árduo, eu passei minha vida toda tentando desenhar, é apenas pratica, o que você chama de dom eu chamo de esforço.
- HAHAHA ok, são lindos, mas quem é essa menina?
-... Que menina? – disse disfarçando muito mal.
- Essa que o senhor desenha sempre. Essa com as flores na mão?
- Orquídeas, são orquídeas... é alguém que eu conheci a muito tempo, e que embora eu ame perdidamente não pude ter comigo.
-E por que não?
-... Tem coisas que a vida nos da sem que a gente entenda, da mesma forma a vida nos tira coisas sem que a gente consiga explicar... mas eu não a tive por mais tempo por que ela tinha um sonho, uma vontade e um... um desejo que tinha que buscar... e mesmo eu não aceitando tão bem de inicio hoje sei que ela se foi por que tinha que ir...
- Ela Deixou o senhor? Viajou?
- é... digamos que sim, agora me faça um favor, e me traga aquele copo com agua sim
- Mas o senhor nunca mais a viu? – disse entregando o copo com agua.
- Sim, acho que a vi um certo dia em meio a multidão, ela estava agarrada ao braço de um rapaz, achei até que ela tinha me visto mas depois percebi que não.
- E por que não foi falar com ela? – sentada no banco de visitas folheando os desenhos e atenta a história como uma netinha ouve os relatos do avô.
- A... Quando eu e ela nos separamos, não foi uma coisa fácil, brigamos e falamos coisas um para o outro que não deviam ser ditas, ela estava feliz, sorrindo, era ele o sonho dela, eu... eu era só um jovem apaixonado, um infante apaixonado... embora não fosse infante a tempos.
- Infante quer dizer sem fala o senhor sabe não é?
- sim. As crianças não tinham direitos a falar, por que dizia-se que só falavam besteira... eu so falei e fiz besteira aquele tempo.
- E por que o senhor a desenha sempre?
- Por que eu já desenhava ela antes, esse desenho eu fiz a muito tempo atrás, e o tempo passou e passou até que eu conheci essa mulher, que tinha os traços desse desenho, lindos olhos vivos e brilhantes, cabelos quentes como chamas, lábios ainda mais quentes e doces... e era apaixonada por orquídeas... Logo orquídeas.
- Por que logo orquídeas?
- São flores lindas, mas solitárias, elas não vivem em grandes plantações, são flores que se prendem a galhos, arvores... mas sempre por pouco tempo. Tem uma vida curta.
-Ela já morreu?
- POR DEUS NÃO... a ultima noticia que tive dela não... e nem quero... acho que prefiro morrer primeiro.
-Mas o senhor nem fala com ela, que diferença faz?
- Para mim faz toda, acordo todo dia com a esperança de que eu a veja, de que e ela entre por essa porta e me diga uma de suas frases típicas, que me sorria como sorriu a ultima vez que a vi, e que deixe eu olhar para ela uma vez mais.
- O senhor ainda a ama muito não é?
- Mais do que amava no dia que disse a ela “eu te amo”.
-... Poxa já não se faz mais amores como esse hein? O senhor é o ultimo.
- ... o que é uma pena... logo tudo vai acabar.
-... Sabe... se eu soubesse o nome dela eu poderia procurar para o senhor
- Não... eu acredito que borboletas devem voltar se sentirem-se bem para isso, não por artimanhas ou convites... em algum lugar ela sabe que eu ainda a amo... e sabe como me achar.
A enfermeira levanta-se e caminha até a porta, e antes de sair o olha desenhando e pensa que algumas pessoas passam a vida toda procurando uma pessoa para amar, outras passam por ela amando e desamando pessoas erradas mas esse senhor passa sua vida amando alguém a quem ele sequer pode ver... e por fim fechando a porta diz suavemente
“é... isso é um amor que não existe mais”
e ouve o som do lápis caindo da mão inerte do velho senhor.
No desenho, os olhos brilhantes, a boca, o cabelo esvoaçante e a sombra definida de um jovem indo embora enquanto ela sorri para outro lado.

Um comentário:

lucio ximenes alves ferrari cortes luciodon disse...

romantico demais... Podia ser mais misterioso...bem escrito, boa leitura. LUCIO XIMENES